
'A pandemia não é motivo para desistir', diz mãe que adotou menino em meio à quarentena
"A pandemia não é motivo para desistir, porque se para gente já está difícil, imagine para as crianças ficarem nesse isolamento." A frase é da dona de salão de beleza Thaisa Aládia Araujo Fonseca, de 30 anos.
Ela é uma das pessoas que adotaram uma criança em meio à pandemia do novo coronavírus no Brasil. Uma exceção. O número de adoções de crianças e adolescentes no 1º semestre deste ano caiu pela metade, revelam dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento.
Foram realizadas 731 adoções de janeiro a junho, contra 1.423 no mesmo período do ano passado – uma queda de 49%.
Dados preliminares de agosto, mês em que Thaisa concretizou o ato, geram uma preocupação ainda maior. Houve apenas 55 adoções, contra 258 no mesmo mês do ano passado.
Para Thaisa e o marido, o almoxarife Adriano Lacerda Rosa Araújo, de 39, a pandemia apenas adiou a concretização do processo. "Para os pais que estão no meio da pandemia e no início do processo de adoção, eu falo o seguinte: 'Não desista por causa da pandemia. A gente pode se prevenir'. Quando fui buscar meu filho, eu andei com álcool gel o tempo inteiro. Não deixava as meninas saírem do carro sem a máscara", conta. "No abrigo, essas crianças quase não têm o que fazer nesse contexto, não podem sair."
Thaisa e Adriano decidiram ampliar a família em janeiro. Moradores de Uberlândia (MG), eles já tinham passado por um processo de adoção há dois anos, quando acolheram três irmãs, na época com 6, 10 e 14 anos. Neste ano, os dois resolveram recorrer aos grupos de Facebook voltados ao que se chama de “busca ativa” para encontrar o quarto filho: um desejado menino.
Encontraram um garoto de 12 anos, de Maravilha (SC). Ficaram sabendo que ele tinha uma deficiência, mas não viram isso como um impeditivo e continuaram o processo, mesmo com a pandemia em curso. “Olhamos outras crianças, mas nos apaixonamos por ele. E pensamos: ‘se fosse um filho biológico, a gente não teria como escolher’. Então eu fui atrás de informações e me senti encorajada”, relata Thaisa.
Estava tudo programado para que o estágio de convivência, período de adaptação que antecede a adoção definitiva, ocorresse em abril. Mas com os períodos de isolamento social consecutivamente prorrogados o estágio foi remarcado para julho.
O garoto ficou ansioso. “A psicóloga do abrigo usou um calendário em que ele ia cortando os dias para compreender que a gente chegaria”, conta Thaisa. Segundo ela, as videochamadas também ajudaram a aliviar a ansiedade. “Aos sábados e domingos, quando a família se reunia, era quando a gente fazia as chamadas de vídeo. E ele perguntava quando a gente iria”, lembra.
Após uma segunda postergação, o estágio foi finalmente remarcado para agosto. “Fui eu, meu esposo, nossas três filhas. A gente percorreu 1.300 quilômetros de carro até a cidade dele.” E a aproximação presencial finalmente aconteceu.
Thaisa conta que uma das voluntárias do Grupo de Estudos e Apoio à Adoção de Maravilha (Geama) emprestou um sítio próximo à cidade para que a família pudesse fazer a adaptação. “Foi preciso para ter mais espaço para esse convívio familiar, já que a pandemia restringiu a possibilidade de passear com ele. Também foi melhor para lidar com os problemas de saúde dele, que toma medicação pela manhã, à tarde e à noite”, diz.
A convivência, aliás, é a principal diferença apontada por Thaisa entre a chegada das três irmãs e a do garoto, que ocorreu em um contexto de “novo normal”.
“Na adoção das meninas, a gente pôde passear, descobrir o que elas gostavam, do que tinham medo. E na dele a gente não pôde sair, fazer um passeio diferente dentro da cidade. Eu só fui descobrir alguns medos dele na volta para Uberlândia, quando já estava com a guarda.”
Há pouco mais de 15 dias no novo lar, o filho recém-chegado de Thaisa já se adapta à rotina da casa e faz suas tarefas da escola, ainda com o apoio das professoras que o assistiam em Maravilha.
“As minhas três também estão estudando online. E a gente já tem uma rotina de manhã, que é quando estou em casa à disposição deles. Eu coloquei ele na mesa para fazer a atividade com as irmãs, e ele achou um barato.”
"Agora, ele tem as irmãs, uma família", resume.
A presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Angaad), Sara Vargas, diz que no começo da pandemia houve um esforço para que adoções possíveis fossem feitas de forma mais célere.
“Mas logo depois o Judiciário parou. E continuou só para questões emergenciais. Na maior parte do país, os processos de infância e juventude não são eletrônicos ainda, o que dificultou muito a situação”, afirma.
Ela ressalta ainda que a falta de varas exclusivas de Infância e Juventude no território nacional também foi determinante para uma queda nas adoções. “As varas que não são únicas colocaram os casos criminais na frente, com seus prazos mais rígidos, infelizmente.”
“A própria rede de proteção não conseguiu continuar trabalhando da forma ideal. A maioria das denúncias de maus-tratos e abusos contra crianças parte da escola ou dos hospitais. E as crianças deixaram de ir para a escola. Então houve menos casos de acolhimento. É todo um ciclo. Menos crianças, um processo mais lento... E as famílias querendo se habilitar passaram a ter mais dificuldade. A maioria dos lugares não conseguiu fazer as entrevistas psicossociais. Muitos não conseguiram fazer o curso preparatório de postulantes à adoção”, diz.
Segundo a presidente da Angaad, iniciativas bem-sucedidas surgiram, mas de forma muito pontual. Foram criados, por exemplo, cursos à distância em alguns estados, como Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Pernambuco, frutos de parceria de grupos de apoio com o Judiciário. “A gente teve de se reinventar, atuar de forma virtual com as famílias”, conta.
O juiz auxiliar da presidência do Conselho Nacional de Justiça e secretário especial de Programas, Pesquisas e Gestão Estratégica, Richard Pae Kim, diz que não há dúvida de que a pandemia criou inúmeras dificuldades para a avaliação dos casos de risco e para o andamento dos processos de acolhimento e de desacolhimento familiar e institucional.
Ele afirma, porém, que, “apesar do número de sentenças de adoções ter caído, o número de adoções iniciadas foi próximo aos números do ano passado”. E ressalta que o CNJ editou em suas resoluções a obrigatoriedade de se priorizar o julgamento dos pedidos de desacolhimento das instituições.
Há hoje no Brasil 46 mil pretendentes inscritos no Sistema Nacional de Adoção. Na outra ponta, estão 9 mil crianças e adolescentes. O problema é que existe um abismo entre os dois pólos. A idade é um dos impedimentos. Enquanto 73% só aceitam crianças até 5 anos, por exemplo, só 27% das crianças têm menos de 6 anos.
Fonte: Globo.com


